terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Só um "xixizinho"

Chegamos e pensei que grande parte dos meus problemas tivesse sido resolvida. Pelo menos ali, à noite.
Primeiro, procuramos um lugar. Isolado, afinal, eramos um casal e acho que é isso que os casais fazem de início quando entram num cinema: procurar um lugar "reservado" para fazer algo que não convém - embora quisesse mesmo ver o filme.
Apontei para a última fileira, no canto direito. Ele assentiu e nós fomos.
Era confortável e não tinha muita gente por perto. Esperamos enquanto o filme não começava. Ele soltava suspiros impacientes... o dia deve ter sido cansativo.
— Preciso usar o toilet, amor — avisei-lhe — Volto rápido!
— Por que não foi antes?
Quando era criança, odiava ainda mais quando me perguntavam isso. "Por que não foi antes?" Não era óbvio? Senti vontade agora. Mas não queria discutir e acabar com um encontro que planejávamos à semanas.
Levantei e fui. Meio que de soslaio... não gosto de chamar atenção.
Algo que me deixa furiosa em mim: eu sempre levo a bolsa. Mesmo que alguém possa segurá-la, sempre levo. E não é desconfiança nem nada. Eu me esqueço mesmo. Mas já estava na metade do caminho e voltar seria incoerente.
Minha bexiga apertava e eu suava frio só de imaginar o alívio. Respirei. Falei pra mim mesma: só mais alguns passos. E finalmente cheguei.
Abri a porta com um sorriso bobo. Mas logo o sorriso se desfez. Parecia que todas as mulheres do cinema resolveram fazer xixi naquele banheiro minúsculo.
Na pia de mármore, adolescentes conversavam e se maquiavam com naturalidade. Bons tempos aqueles. Três mulheres improvisaram uma fila. Eu gostava disso, em nós, mulheres: organização.
— Calma — pensava — só alguns minutinhos.
Cruzei minhas pernas em X e acompanhei a fila. Conversavam rindo e eu me perguntava se realmente queriam usar o banheiro.
Uma eternidade e a da "cabine" - sempre chamei de cabine - direita saiu, ajeitando a minissaia. E a primeira da fila ainda hesitou. Finalmente entrou.
As adolescentes combinavam com quem cada uma ficaria... mas eu não conseguia entender perfeitamente. Minha bexiga não deixava.
Logo a segunda e em pouco tempo a terceira. Seria a próxima... e isso acabaria. Levou cinco segundos contados, desde a entrada da terceira e a primeira saiu.
Entrei desengonçada... nada de perder a elegância correndo.
Não sei o que é que dá... quando chegamos, parece que a vontade é duplicada. Mas eu tinha que controlar aquilo... ainda precisava me arrumar - sim, mulheres se arrumam para urinar.
Nesse instante eu pensava nas doenças que poderia contrair só de sentar naquele vasso. As aulas de biologia da sétima série vieram como filme, apesar de já ter se passado mais de dez anos desde então. Arrudiei o vaso em papel higiênico com uma velocidade incrível, mesmo que não tivesse a intenção de sentar ali.
Fechei a porta, mas a tranca era falha... então segurei com uma das mãos a porta com a bolsa entre os dedos. A outra mão, a direita, serviu para preparar toda a roupa e me apoiar em uma das paredes.
— Uff!
Alivio único, aquele. Abri os olhos e percebi que lacrimejei de tanto alívio.
Na porta, algumas besteiras escritas, mas uma me chamou antenção:
"lora gata. atendo homens e mulheres" e logo após o telefone, meio que numa letra garranchada. Não era pelo conteúdo um tanto peculiar, mas pelo fato de colocar que atende homens num banheiro feminino. Como se eles fossem ver.
Quando acabei, tive a sensação de que já tinha ganhado o dia ali, naquele momento. Mas a ficha cai, era só um "xixizinho". Então puxei o papel higinênico, na esperança de que saísse algo. Saiu, mas só um quadradinho. Me arrependi de usar tanto papel para arrudiar o vaso se nem mesmo sentaria nele.
Tentei limpar, enquanto o braço que segurava a porta ficava dormente...
Escutei as adolescentes indo e pouco tempo depois, as três que "estavam no meu caminho" desde a árdua espera.
Não aguentei e soltei um suspiro. Esperava que ali não tivesse ninguém. Se tivesse, já era tarde.
Levantei assim que pude e me arrumei. No espelho deparo-me com o que não gostaria de ver: eu estava acabada. Limpei as lágrimas que tinham escorrido e dei um retoque na make up. Lavei as mãos voltando a lembrar das doenças que o professor de biologia descrevia sem paciência para as crianças que queriam saber de tudo, menos daquilo.
Encarei a porta por alguns segundos... não gostaria de tocar na maçaneta suja. Por sorte, a porta estava entreaberta. Tentei abri-la com a ponta do scarpin, mas acho que levaria muito menos tempo se simplesmente abrisse com a mão. Alguém de fora empurrou a porta. Uma garota que provavelmente estava tão desesperada quanto eu, quando cheguei, mas tinha a sorte de não enfrentar fila. Agradeci e andei um pouco mais rápido para a sala.
O filme já tinha começado e eu estava prestes a passar pelo pior da noite. Quando cheguei ao lado dele, ele me olhou com uma cara abusada.
— Demorou muito.
Sim, isso era o pior da noite. Evitei briga, mas na minha cabeça, chamava-o de mil coisas ao mesmo tempo. Só evitei mesmo porque sabia que ele não tinha ideia do que é ser mulher.

3 comentários:

Anônimo disse...

VIIIIIIIIIIIICCCCCCTTTTTTTTOOOOORR
hauahuahua
não pude deixar de te fazer vergonha,até aqui!
mas tu que fez?
eu amei a descrição e a compreençao do "ser mulher" ahuahuahu realmente este pequeno ato é um tanto complexo para nós.
Enfiim
bjp

Anônimo disse...

adorei.

Alice Mesquita disse...

Aaaaaaaaah que perfeito velho! Ri muito com a última frase. E bem, ainda bem que você nos entende (?) hahahahaha. Nunca tinha parado pra pensar que pra vocês, homens, é bem mais fácil -.-'